Duas Visões do Contrabaixo

Tenho duas visões distintas do meu instrumento. Visões distintas que sempre se intercalam. Uma é a do instrumento de linhas horizontais melódicas que conduzem ou solam, dão cor, envolvem uma música. Um instrumento falante, tão falante como nossa língua. O outro é um instrumento mais ligado a terra, ao fogo e às raízes rítmicas. Esse é mais percussivo, pulsante como as batidas do coração, que atinge o chacra diretamente. Pra mim, nós baixistas somos seres anfíbios. Perambulamos na terra e na água. Rítmo e melodia. Harmonia também. Fazemos o elo da sessão rítmica de uma banda com a sessão melódico-hamônica. Conduzimos as dinâmicas e temos consciência de todo o resto, temos que estar conscientes do baterista ou percussionista, temos que estar conscientes dos instrumentos harmônicos. Fazemos um belo passeio na música.
Esse disco me dá uma sensação de amplitude nesse sentido. Ele me dá maior percepção do todo. Estou realmente gostando muito da experiência. E em se tratando de um disco que aborda a minha latinidade (no Brasil, nem sempre temos essa consciência; em linhas gerais, não procuramos conhecer a cultura dos países vizinhos da América Latina), tenho tido a oportunidade de aprofundar minha visão de mundo através da música.
O baixo que fala, o baixo que pulsa, amor e música, amor à música.

 

CH Straatmann – Efecto Vertigo (Gravações)

Chegamos ao quinto dia de gravações do Efecto Vertigo (acho que não falei ainda, o álbum é instrumental). Um dia bastante puxado pra mim, pois tinha que gravar vários instrumentos; baixos elétricos, baixos acústicos, solos, violões, melodias.

Comecei por uma música que tem uma batida africana frenética, ainda com nome provisório. Uma música rítmica, que não segue os padrões de um tema convencional. Praticamente não há melodia, tentei experimentar algo diferente, um tema desenhado por uma linha de baixo elétrico, acompanhado por uma forte sessão percussiva. No meio fiz uma improvisação de baixo. Esse som era uma dúvida pra mim, se entraria ou não no disco, pelo seu caráter experimental. Hoje é uma das músicas que mais gosto.

Na sequencia parti para a gravação de baixo acústico de 3 músicas. Duas delas com solo de baixo. Baixo acústico é sempre um desafio, um instrumento de grande porte, sem trastes, que pelo menos pra mim, exige bastante fisicamente. Tiramos um bom som dos microfones e finalmente terminamos essa etapa, das mais importantes, nesse projeto.

Depois fiz mais alguns baixos elétricos, e em sequência, os violões. Dessa vez, utilizamos violões com cordas de nylon e de aço.

Missão cumprida, e quando anoiteceu, pedi a Solovera (engenheiro de som e produtor), que fizesse um solo em uma música. Se você tem Jorge Solovera produzindo seu disco, posso lhe garantir que é um pecado grande não convidá-lo a fazer um solo.Solove é um exímio guitarrista, altamente versátil, e domina muitas linguagens diferentes em seu instrumento.  Por sinal, um solo belíssimo em um dos temas (infelizmente não filmei, mas poderá ser conferido quando o disco sair). Obrigado Solovera!

Abaixo um vídeo desse dia.