Duas Visões do Contrabaixo

Tenho duas visões distintas do meu instrumento. Visões distintas que sempre se intercalam. Uma é a do instrumento de linhas horizontais melódicas que conduzem ou solam, dão cor, envolvem uma música. Um instrumento falante, tão falante como nossa língua. O outro é um instrumento mais ligado a terra, ao fogo e às raízes rítmicas. Esse é mais percussivo, pulsante como as batidas do coração, que atinge o chacra diretamente. Pra mim, nós baixistas somos seres anfíbios. Perambulamos na terra e na água. Rítmo e melodia. Harmonia também. Fazemos o elo da sessão rítmica de uma banda com a sessão melódico-hamônica. Conduzimos as dinâmicas e temos consciência de todo o resto, temos que estar conscientes do baterista ou percussionista, temos que estar conscientes dos instrumentos harmônicos. Fazemos um belo passeio na música.
Esse disco me dá uma sensação de amplitude nesse sentido. Ele me dá maior percepção do todo. Estou realmente gostando muito da experiência. E em se tratando de um disco que aborda a minha latinidade (no Brasil, nem sempre temos essa consciência; em linhas gerais, não procuramos conhecer a cultura dos países vizinhos da América Latina), tenho tido a oportunidade de aprofundar minha visão de mundo através da música.
O baixo que fala, o baixo que pulsa, amor e música, amor à música.

 

Efecto Vertigo – Mixagem

Chegamos ao processo de mixagem.
É nessa etapa, que trabalhamos toda uma gama de aspectos sonoros que estarão presentes em um disco. Obviamente, se você teve uma boa captação na fonte, com bons microfones, isso trará melhores resultados para sua mix. Temos uma infinidade de canais de áudio, com muitos instrumentos diferentes: Baixos, bongôs, congas, guiro, muitos violões (bases, melodias, solos), timbales, campanas, etc. É hora de combinar os sons, decidir sobre os volumes dos instrumentos, trabalhar as frequências e equalizar, dar um bom trato nos timbres, dinâmicas, adicionar alguns poucos efeitos que não estavam presentes na hora da captação (reverb, por exemplo).
Aqui, como também na etapa de gravação, tomamos algumas decisões estéticas; Queremos que o disco soe moderno? Queremos que tenha uma sonoridade mais vintage? É sempre bom ter referências do tipo de som que se quer chegar. Se você quer aquele som da década de sessenta, pesquise o tipo de equipamento usado em estúdio para aquela sessão de gravação, preste atenção nas opções estéticas adotadas na produção daquele álbum. Claro, os tempos são outros, os equipamentos são outros, os músicos são outros. Mas referência sempre pode ajudar, não é que você vá chegar exatamente àquele resultado, mas é uma direção.
Começamos a mix com a música que dá título ao disco “Efecto Vertigo”. Foi com essa música que eu descobri, ainda na fase de pré-produção, qual o tipo de som que nortearia alguns aspectos do disco. Na gravação somos eu fazendo cordas e Rudson Daniel fazendo as percussões. Dois caras e muitos instrumentos. Jorge Solovera comandando a sessão de mixagem, realizando a tal “alquimia do som”.

CH Straatmann – Efecto Vertigo (Gravações)

No último dia das sessões de gravação de “Efecto Vertigo”, tive a alegria de receber um amigo de longa data em estúdio: Cássio Nobre.

Cássio é responsável por muitas coisas que nortearam meu caminho musical durante todos esses anos. Começamos a trabalhar juntos na Dois Sapos e Meio, por volta de 97/98. Foi ele quem mais me incentivou quanto à importância do estudo e da pesquisa em música, que são fundamentais a quem quer se dedicar a esse ofício. Através dele, conheci diferentes ritmos,  músicas das mais variadas, e trabalhamos juntos em algumas ‘gigs’ também. No caso de Cássio, suas pesquisas se aprofundaram tanto, que ele se tornou etnomusicólogo.

Dele também recebi grande incentivo no campo das composições, naquela época, ele era uma das poucas pessoas a quem eu me atrevia a mostrar minhas músicas. E sempre fui muito bem recebido por ele nesse sentido, o que me deu muita confiança para os anos seguintes.

Em 2007, Cássio me convidou para gravar o seu primeiro disco solo, “Última Pele”, e em 2008, excursionamos pelo Nordeste com esse show. Solovera, que está gravando e produzindo o “Efecto Vertigo”, também trabalhou com Cássio em “Ultima Pele”.

Na gravação que fizemos ontem, ele tocou viola de 10 cordas em duas músicas, e a ideia era criarmos uma atmosfera que reforçasse a identidade latina dessas composições.

Com vocês, um trechinho da nossa última sessão de gravação: